Dona de loja de calçados confere no balcão um sapato devolvido, aplicando a política de troca e devolução da loja.

Política de troca e devolução: como transformar o pedido de volta em uma nova venda

Devolução não é acidente de percurso na loja virtual. É parte do negócio, e tem tamanho conhecido: segundo levantamento da ABREV (Associação Brasileira de Reversa do Varejo) feito com a base da Aftersale, 12% dos produtos comprados pela internet retornam ao varejista, num volume de cerca de R$ 59 bilhões em mercadorias devolvidas por ano no Brasil. Mesmo assim, a política de troca e devolução costuma ser o texto mais esquecido da loja, escrito às pressas uma vez e nunca mais relido.

O problema quase nunca é a devolução em si. É o que acontece do lado de dentro quando ela chega. A mensagem entra no fim da tarde: o tênis apertou, o vestido não caiu como na foto, o presente não agradou. E o dono fica preso entre duas perguntas que ninguém respondeu para ele. O que eu sou obrigado a fazer? E o que eu posso escolher? Sem regra escrita, cada caso vira uma negociação nova. Num dia a loja paga o frete de volta para evitar briga, no outro recusa a troca porque passou do prazo, e o cliente percebe a incoerência antes do próprio dono.

Uma regra clara acaba com esse improviso. Ela protege a margem, deixa quem atende seguro para responder e ainda revela algo que pouca gente enxerga: quem pede para trocar está dizendo, com outras palavras, que ainda quer o seu produto. Só precisa de outro tamanho, outra cor ou de um bom motivo para confiar de novo.

A seguir, o que a lei já decide pela sua loja, o que fica à sua escolha, quanto a devolução custa e, no final, um passo a passo para escrever a sua política na língua que o seu cliente fala.

Política de troca e devolução: o que a lei já obriga a sua loja a cumprir

Na compra feita fora da loja física, como a online, o artigo 49 do Código de Defesa do Consumidor dá ao cliente 7 dias para desistir, contados do recebimento, com devolução imediata e corrigida de tudo o que pagou. O Decreto 7.962/2013 obriga a loja a informar com clareza como exercer esse direito.

Primeiro, o que já está decidido. O artigo 49 do Código de Defesa do Consumidor diz que o consumidor “pode desistir do contrato, no prazo de 7 dias a contar de sua assinatura ou do ato de recebimento do produto ou serviço, sempre que a contratação de fornecimento de produtos e serviços ocorrer fora do estabelecimento comercial”. A venda pela internet se encaixa aí, e isso significa três coisas para a sua loja.

A primeira: o relógio começa a correr quando o cliente recebe o produto, e não quando ele paga. Se a entrega demorou, os 7 dias só começam depois que o pacote chega.

A segunda: o cliente não precisa justificar nada. O artigo não pede motivo. Mudou de ideia, achou a cor diferente, simplesmente não quer mais: tudo cabe na desistência dentro do prazo (o chamado direito de arrependimento).

A terceira: o dinheiro volta inteiro e sem enrolação. O parágrafo único do mesmo artigo manda que “os valores eventualmente pagos, a qualquer título, durante o prazo de reflexão, serão devolvidos, de imediato, monetariamente atualizados”. A expressão “a qualquer título” pesa: não é só o preço da peça. O que o cliente pagou para recebê-la também entra na conta.

O segundo texto que toda loja online precisa conhecer é o Decreto 7.962/2013, que regula a venda pela internet. O artigo 5º dele diz que a loja “deve informar, de forma clara e ostensiva, os meios adequados e eficazes para o exercício do direito de arrependimento”. Em palavras de dono: não basta o cliente ter o direito, ele precisa achar sem esforço o caminho para usá-lo. Política enfiada num link miúdo do rodapé fica longe do que o decreto pede.

O mesmo artigo traz mais três pontos que mudam a rotina da loja:

  • O cliente pode desistir “pela mesma ferramenta utilizada para a contratação”. Comprou pelo site, pode cancelar pelo site. A loja pode oferecer outros caminhos, mas não pode obrigar o cliente a trocar de canal.
  • A loja precisa comunicar a desistência “imediatamente” à administradora do cartão, para que a compra não seja lançada na fatura ou, se já foi, para que o valor seja devolvido.
  • A loja deve enviar ao cliente “confirmação imediata do recebimento da manifestação de arrependimento”. Ou seja: chegou o pedido, responda na hora dizendo que recebeu.

Existe ainda uma situação que nenhuma política consegue mudar: o produto com defeito. Para o defeito que dá para ver ou perceber com facilidade, o artigo 26 do Código de Defesa do Consumidor dá ao cliente trinta dias para reclamar em produtos não duráveis e noventa dias em produtos duráveis. Em que grupo o seu produto entra é uma boa pergunta para o seu advogado. E o artigo 18 diz que, se o problema não for resolvido em até trinta dias, o cliente pode exigir, à escolha dele, “a substituição do produto por outro da mesma espécie, em perfeitas condições de uso”, entre outras alternativas que o próprio artigo lista.

Somando tudo, são três situações diferentes:

  • Desistência dentro dos 7 dias: regra da lei, igual para todo mundo.
  • Defeito: regra da lei, com prazos próprios.
  • Troca por tamanho, cor ou gosto, sem defeito e depois dos 7 dias: escolha da loja.

É só nessa terceira que você decide. Pode dar mais prazo, pode aceitar troca de presente, pode exigir etiqueta e produto sem uso. Mas, se decidir oferecer, precisa escrever, porque o que está escrito vira compromisso com o cliente e régua para a equipe.

Um aviso honesto: esta matéria explica a lei para você saber onde pisa, mas não é parecer jurídico. O texto final da sua política deve passar por um advogado.

Quanto a devolução custa de verdade para a loja

Segundo levantamento da ABREV com base da Aftersale, cerca de R$ 59 bilhões em mercadorias compradas pela internet são devolvidas por ano no Brasil, e 12% dos produtos do e-commerce voltam ao varejista. Os custos de trazer a mercadoria de volta (logística reversa) podem representar 3,6% do faturamento anual de uma operação.

Números nessa escala parecem distantes de quem fatura R$ 20 mil, R$ 50 mil ou R$ 100 mil por mês, e é por isso que o próprio estudo faz uma simulação. O levantamento da ABREV divulgado pelo E-Commerce Brasil imagina uma empresa com faturamento anual de R$ 50 milhões e tíquete médio de R$ 355. Aplicada a taxa de 12%, essa operação teria R$ 6 milhões em mercadorias devolvidas ao longo do ano, em mais de 16 mil solicitações, e gastaria R$ 1,8 milhão apenas com a logística reversa.

Atenção ao recorte: é uma simulação feita pela própria ABREV, de uma empresa muito maior que a do leitor deste blog, e não uma média do mercado. Serve para mostrar a proporção, não para prever a sua conta.

Para trazer essa proporção para perto, vale uma conta hipotética. Imagine uma loja que fatura R$ 50 mil por mês e tem exatamente as mesmas proporções da simulação. Seriam cerca de R$ 6 mil em vendas desfeitas todo mês e perto de R$ 1.800 gastos só para buscar, receber e reprocessar os produtos que voltaram. São números ilustrativos, porque a taxa real muda muito de um segmento para outro. O que não muda é o princípio: devolução custa, mesmo quando o produto volta perfeito para a prateleira.

E a conta não termina no frete. O relatório anual de e-commerce da ACI Worldwide, feito com as transações que a empresa processou no mundo em 2025, calcula que “a cada US$ 1 milhão em reembolsos relacionados a devoluções, o impacto total para os varejistas pode chegar a US$ 1,3 milhão”. Em outras palavras, a devolução pode custar 30% acima do valor reembolsado. Entram nessa soma, segundo o estudo, “despesas com logística reversa, depreciação de estoque, reprocessamento, taxas de pagamento não recuperáveis” e outros custos.

Na rotina da sua loja, essa lista aparece assim:

  • O frete de ida, que a loja pagou para entregar e que não volta.
  • O frete de volta, quando fica por conta da loja.
  • A peça que retorna amassada, sem etiqueta ou já fora de coleção, e não vende mais pelo preço cheio.
  • As horas de quem confere, limpa, reembala e recoloca o produto no estoque e no site.
  • A taxa do meio de pagamento, que nem sempre retorna para a loja quando o valor volta ao cliente.
  • O anúncio que trouxe aquela venda.

O último item é o que mais passa batido. Para quem investe em tráfego pago, cada venda carrega o custo do clique e da campanha que a trouxe. Quando a venda volta, o dinheiro do cliente retorna, mas o dinheiro do anúncio não. A loja que calcula quanto pode pagar por venda olhando só os pedidos aprovados está medindo com a régua torta: parte daquelas vendas vai voltar, e o custo de conquistá-las fica.

Por isso a devolução merece uma linha própria na planilha de custos, ao lado do frete, da embalagem e das taxas. Se a sua ainda não tem, vale refazer a conta de quanto custa vender pela internet com essa linha incluída. Às vezes é ali que um produto que parecia lucrativo revela que, na verdade, só empata.

Por que o cliente devolve: o tamanho errado lidera a lista

Na base analisada pela Aftersale, erros de tamanho respondem por 55% das solicitações de devolução. Em seguida vêm arrependimento ou desistência, com 15%, defeito ou problema de qualidade, com 12%, expectativa não atendida, com 8%, e problemas logísticos e envio do produto errado, com 5% cada.

Cliente em casa experimenta o mocassim recém-chegado e compara o tamanho dos dois pés, em dúvida sobre a numeração.

Mauricio Cwajgenbaum, head da Aftersale e presidente da ABREV, resume o padrão: “Em moda, por exemplo, tamanho e caimento estão entre os principais fatores associados às devoluções. Em eletrônicos, apesar de a taxa ser menor, o tíquete mais alto faz com que cada retorno tenha impacto financeiro maior”.

Agora releia a lista pensando na sua loja. Tamanho errado, expectativa não atendida e produto errado, juntos, respondem pela maior parte das solicitações. Nenhum desses motivos nasce no caminhão de entrega. Eles nascem antes da venda, na página do produto e na mesa de embalagem, nos pontos em que o cliente teve que adivinhar ou em que alguém da loja se distraiu.

Olhe cada motivo com olhos de dono:

  • Tamanho (55%). O cliente chutou e errou. Tabela genérica de P, M e G resolve pouco, porque o M de uma marca é o G de outra. O que ajuda é a medida da própria peça em centímetros, a indicação de como ela veste (justa, solta, no corpo), a altura e o manequim de quem aparece na foto. No calçado, dizer se a forma é pequena, normal ou grande responde antes a dúvida que, sem resposta, vira troca.
  • Expectativa não atendida (8%). A foto prometeu uma coisa e a caixa entregou outra. Cor diferente da tela, tecido mais fino do que parecia, objeto menor do que a imagem sugeria. O caminho é mostrar o produto como ele é: luz natural, foto com escala, detalhe da textura e descrição honesta do material.
  • Produto errado (5%). Esse é inteiramente da casa. A defesa é conferir o pedido antes de fechar a embalagem, de preferência com uma segunda pessoa nos dias de muito movimento.
  • Defeito ou qualidade (12%). Começa no fornecedor e termina na embalagem. Conferir o lote quando chega e olhar a peça antes de despachar evita mandar o problema para a casa do cliente.
  • Problema logístico (5%). Embalagem que não protege, prazo que estoura. Parte depende de terceiros, mas a embalagem é sua.
  • Arrependimento (15%). Parte disso é natural, e a lei protege: o cliente mudou de ideia e pronto. Mas uma parte é dúvida que a página não respondeu e que só apareceu quando o produto chegou.

A conclusão é desconfortável e útil: boa parte do trabalho contra a devolução acontece antes de o cliente clicar em comprar, e a imagem que mostra medida, textura e caimento faz parte disso. Se esse ainda é um ponto fraco da sua loja, vale ler o que escrevemos sobre fotos de produto que mostram o que o cliente precisa ver.

Há um último hábito que custa quase nada: registrar o motivo de cada pedido de troca ou devolução. Uma planilha simples resolve, com o produto, o tamanho, a data e o motivo nas palavras do próprio cliente. Depois de algumas semanas, os motivos deixam de parecer azar e começam a apontar para páginas específicas, para um fornecedor ou para um tamanho que sempre veste diferente. A devolução, que parecia só prejuízo, vira informação de graça.

Qual é o normal de devolução no seu segmento

Pela base da Aftersale, calçados têm taxa de devolução entre 16% e 20%, moda e vestuário entre 12% e 18% e produtos infantis entre 12% e 15%. Os índices caem em cama, mesa e banho, perto de 5%, em cosméticos, com 4%, e em eletrônicos, entre 2% e 5%.

É por isso que a pergunta “a devolução da minha loja está alta?” não tem resposta sem o segmento. A média geral de 12% mistura sapato com batom, vestido de festa com jogo de toalhas. Comparar a sua loja com ela pode tanto assustar sem motivo quanto tranquilizar quem deveria estar preocupado.

Dois exemplos deixam isso claro. Uma loja de calçados com taxa dentro da faixa do setor está no normal, por mais que o número pareça grande visto de fora. Já uma loja de cosméticos com taxa parecida com a média geral do e-commerce estaria muito acima do próprio segmento, e teria um bom motivo para investigar: lote com defeito, embalagem que vaza, foto que não mostra a cor real do produto.

Para saber onde você está, a conta é simples e cabe numa planilha:

  • Some os pedidos que tiveram solicitação de troca ou devolução no mês.
  • Divida pelo total de pedidos do mesmo mês.
  • Faça a conta separada para troca e para devolução com dinheiro de volta, porque as duas têm custos e soluções diferentes.
  • Se a loja vende mais de uma categoria, faça por categoria. Quem vende moda adulta e moda infantil tem duas réguas, não uma.

Olhe a tendência de alguns meses, e não um mês isolado. Um período de promoção forte ou de muitas vendas para presente puxa a taxa para cima, como você vai ver na seção sobre o fim do ano.

Também vale lembrar o alerta sobre o tíquete. Eletrônicos têm a menor taxa da lista, mas, como observou o presidente da ABREV, cada retorno pesa mais no caixa porque o produto vale mais. Taxa baixa não significa problema pequeno.

Por fim, o normal do segmento é referência, não meta. Estar dentro da faixa não é motivo para relaxar, e estar acima não é sentença. O que interessa é descobrir quais produtos e quais tamanhos puxam a sua taxa para cima, porque é neles que a página, a foto ou o fornecedor pedem atenção primeiro.

Estorno ou vale-compras: o destino do dinheiro decide se o cliente volta

Na base da Aftersale, 58% das solicitações de devolução terminam com o dinheiro devolvido ao meio de pagamento (estorno) e 42% viram vale-compras. No estorno, o valor volta ao consumidor; no vale-compras, ele permanece disponível para uma nova aquisição dentro da mesma loja, o que muda o efeito da devolução sobre a receita.

Dona de loja embala as sandálias escolhidas pela cliente com o vale-compras da troca, junto de um cartão de agradecimento.

O estorno encerra a história ali: o dinheiro sai da loja e o cliente segue a vida. O vale-compras mantém o valor dentro de casa e cria um motivo concreto para o cliente voltar e escolher outra coisa. É a forma mais direta de o pedido de volta virar uma nova venda.

Só que existe um cuidado que não é opcional, e é aqui que o improviso costuma sair caro. Na desistência dentro dos 7 dias, o dinheiro de volta é direito do cliente, garantido pelo artigo 49 do Código de Defesa do Consumidor. Nesse caso, o vale-compras só pode aparecer como uma opção que ele escolhe, nunca como resposta única. O mesmo raciocínio vale para o produto com defeito, em que a lei deixa a escolha da alternativa com o consumidor. A liberdade da loja está na troca que ela oferece por conta própria, fora do prazo legal e sem defeito. Ali, a regra é sua, desde que esteja escrita antes da compra.

Se o vale-compras é opção, ele precisa ser a opção mais atraente, e não a mais cômoda para a loja. Algumas formas de deixá-lo interessante sem mexer no direito de ninguém:

  • Liberar o crédito assim que a devolução for confirmada, sem fazer o cliente esperar dias.
  • Acrescentar um pequeno bônus ao valor, para quem escolhe continuar comprando.
  • Deixar o frete da próxima compra por conta da loja.
  • Dar validade longa e permitir o uso em qualquer produto, sem lista de exceções.

E apresente as duas opções lado a lado, com a mesma clareza: dinheiro de volta no mesmo meio de pagamento, ou crédito para usar na loja com o benefício que você decidiu oferecer. Sem letra miúda, sem botão escondido. O cliente que escolhe o crédito por vontade própria volta com outra disposição. O que foi empurrado volta, quando volta, desconfiado.

Vale lembrar que o motivo número um das solicitações é tamanho. Nesses casos, o cliente quer o mesmo produto em outra numeração, e a troca já é, por si só, uma venda que continua. Quanto mais rápido a peça certa chega, mais a troca parece atendimento, e não castigo.

Agora pense no outro lado. O cliente que recebe o dinheiro de volta e nunca mais ouve falar da loja vira mais um nome na lista de quem comprou uma vez e sumiu. É um vazamento silencioso, e o que escrevemos sobre o cliente que compra uma vez e não aparece mais ajuda a entender por que ele acontece e como reaproximar parte dessas pessoas. A devolução bem resolvida é um dos poucos momentos em que a loja tem a atenção total desse cliente. Desperdiçar esse momento com uma resposta fria é deixar a próxima venda escapar pela porta dos fundos.

Dinheiro de volta rápido vira argumento de venda

Um estudo da PYMNTS com a Ingo Payments, que não informa o país da amostra, aponta que 63% dos consumidores já esperam receber o reembolso no mesmo dia e que quase 40% preferem enfrentar uma consulta odontológica a esperar mais de uma semana para reaver o dinheiro.

O estudo da PYMNTS com a Ingo Payments, noticiado pelo E-Commerce Brasil, também traz a leitura que interessa ao dono: “Quando os consumidores recebem o dinheiro rapidamente, a percepção de valor da marca aumenta. Esse fator pode ser decisivo para a fidelização e recorrência de compra, sobretudo em um mercado cada vez mais competitivo.”

Vale o recorte: a matéria não informa o país nem o tamanho da amostra, então os números servem como sinal de como pensa o consumidor digital, e não como retrato do brasileiro. Ainda assim, quando quase 40% das pessoas preferem a cadeira do dentista a esperar mais de uma semana pelo próprio dinheiro, o recado está dado.

Repare que a lei brasileira já anda na mesma direção. O Código de Defesa do Consumidor manda devolver os valores “de imediato”. O decreto do comércio eletrônico pede confirmação imediata do pedido de desistência e comunicação imediata à administradora do cartão. A loja que trata reembolso como tarefa para o fim do mês, além de irritar o cliente, se afasta do que a regra pede.

O passo seguinte é usar isso a seu favor. Se a sua loja devolve rápido, diga isso antes da compra, e não só depois. Uma frase curta perto do botão de comprar, do tipo “não serviu? A troca é simples e o dinheiro volta assim que o produto chega”, responde a dúvida de quem ainda está em cima do muro, principalmente de quem não conhece a loja. É uma promessa, então só escreva o que a sua operação consegue cumprir sempre, e não apenas nos dias tranquilos.

Para cumprir, o processo precisa ter dono e etapas claras:

  • Pedido recebido: confirmação ao cliente na hora, como o decreto pede.
  • Instruções enviadas: como embalar, onde postar e até quando.
  • Produto chegou: conferência no mesmo dia, sem deixar o pacote parado num canto.
  • Produto conferido: estorno solicitado ou crédito liberado no mesmo dia, com aviso ao cliente.
  • Em cada etapa: uma mensagem curta dizendo em que ponto está o pedido.

Nada disso exige sistema caro. Exige uma pessoa responsável, um horário fixo do dia para cuidar das trocas e um punhado de mensagens prontas. Quando o cliente recebe notícia a cada passo, ele para de mandar “e aí, cadê o meu dinheiro?” e passa a enxergar a sua loja como um lugar que resolve.

Novembro e dezembro: a temporada em que as devoluções sobem

Segundo o relatório anual de e-commerce da ACI Worldwide, com transações processadas globalmente em 2025, cerca de 20% de todos os reembolsos do ano se concentraram entre novembro e dezembro. Em dezembro, a taxa chegou a 2,89%, acima da média de 2,25% de janeiro a outubro.

O mesmo levantamento mostra que, ao longo de 2025, os reembolsos representaram entre 2,5% e 3% do total de pagamentos. Os dados estão no relatório anual da ACI Worldwide, noticiado pelo E-Commerce Brasil, e o recorte importa: são transações que a empresa processou no mundo todo, e não só no Brasil. Mesmo assim, a concentração no fim do ano não é detalhe estatístico. É a época em que a loja mais vende, mais anuncia e tem menos tempo para respirar.

Cleber Martins, head de Inteligência de Pagamentos e Soluções de Risco da ACI Worldwide, resume a mudança de olhar: “as devoluções deixaram de ser um tema exclusivamente operacional e passaram a integrar a agenda estratégica das empresas, especialmente em categorias com margens mais comprimidas.”

Não é difícil entender o pico. No fim do ano, muita gente compra para outra pessoa e escolhe o tamanho no palpite. Promoções fortes empurram compras por impulso, que depois são repensadas com calma. E o volume de pedidos sobe tanto que qualquer falha de separação ou de embalagem se multiplica.

Algumas decisões valem ser tomadas agora, com calma, e deixadas por escrito:

  • Troca de presente. Defina como quem ganhou o presente pede a troca sem depender de quem comprou, e se a troca pode ser feita sem revelar o valor pago.
  • Prazo de fim de ano. Se a loja quiser estender o prazo de troca para as compras de novembro e dezembro, escreva até que data vale, com dia e mês. Lembre que isso é benefício extra: os 7 dias da lei continuam valendo, contados do recebimento.
  • Grade reservada. Separe parte do estoque dos tamanhos mais vendidos para atender trocas, para que o cliente não ouça “acabou” justamente na hora de trocar.
  • Equipe do começo do ano. Defina quem cuida das trocas em janeiro, quando muita gente está de férias e os pacotes continuam chegando.
  • Anúncios da temporada. Se a loja vai investir mais em mídia no fim do ano, faça a conta de quanto pode pagar por venda já considerando que parte dessas vendas vai voltar.

O último ponto é o que mais pesa para quem depende de tráfego pago. Uma campanha de fim de ano que parece ótima no painel pode encolher bastante quando as devoluções chegam. Olhar a venda líquida, já descontado o que voltou, é a diferença entre comemorar um número e entender um resultado.

Como escrever a política de troca e devolução da sua loja nesta semana

Uma regra completa para trocas e devoluções informa o prazo legal de 7 dias para desistir e o prazo extra, se houver. Também separa troca de devolução, diz quem paga o frete em cada caso, explica como pedir pelo mesmo canal da compra, define estorno e vale-compras e fica visível na loja.

Dono de loja escreve no notebook as regras de troca e devolução, com o caderno de anotações aberto ao lado.

Esqueça o modelo pronto copiado de outro site: ele foi escrito para outro produto e outro cliente, e costuma vir cheio de termos que ninguém entende. Escreva como você fala no balcão, com frases curtas, exemplos concretos e nenhuma armadilha escondida. Abaixo estão os blocos que a política precisa ter, na ordem em que o cliente procura as respostas.

O prazo

Comece pelo que a lei garante: 7 dias para desistir da compra, contados a partir do recebimento. Se a loja oferece mais tempo para trocas, diga quantos dias e a partir de quando, sem deixar margem para dúvida. Prazo vago, do tipo “em breve” ou “prazo razoável”, só adia a discussão.

Troca não é devolução

Troca é quando o cliente continua com a loja e muda o tamanho, a cor ou o produto. Devolução é quando ele desfaz a compra e recebe o dinheiro de volta. Cada uma tem as suas regras, e misturar as duas no mesmo parágrafo é a receita para o cliente entender errado.

Quem paga o frete

É aqui que a troca costuma virar discussão, então seja específico e separe por situação. Na desistência dentro dos 7 dias, a lei manda devolver os valores pagos “a qualquer título”, e o caminho mais seguro é a loja arcar também com o envio de volta, deixando isso claro. No defeito, a responsabilidade é da loja, e cobrar do cliente o frete de um problema que não foi dele é o jeito mais rápido de perdê-lo. Na troca por escolha do cliente, fora desses casos, a decisão é sua: pode bancar a primeira troca, pode dividir o custo, pode cobrar. O que não pode é o cliente descobrir só depois.

Como o cliente pede

Pelo decreto do comércio eletrônico, o cliente pode desistir pelo mesmo canal em que comprou; outros canais, como um formulário ou a conversa por mensagem, entram como opção a mais. Descreva o passo a passo: onde pedir, o que informar, como embalar e onde postar. E diga que a loja confirma o recebimento do pedido na hora, como manda o mesmo decreto.

Em que estado o produto deve voltar

Para a troca que a loja oferece por conta própria, você pode definir condições, como produto sem uso, com etiqueta e na embalagem original. Para a desistência dentro dos 7 dias e para o defeito, combine com o seu advogado o que é razoável pedir, porque ali a regra não é só sua.

Para onde vai o dinheiro

Diga como funciona o estorno em cada meio de pagamento e em quanto tempo a loja pede a devolução do valor depois de receber o produto. Se a compra foi no cartão, explique que a loja comunica a desistência à administradora para que o valor não seja cobrado ou seja devolvido. E apresente o vale-compras como alternativa, com a vantagem que você decidiu oferecer, sempre à escolha do cliente.

Onde a política aparece

Política escondida não protege ninguém. Coloque um resumo de duas ou três linhas na página do produto, perto do botão de compra; repita no carrinho, antes do pagamento; e deixe o texto completo num link fácil de achar no rodapé. Quem atende o cliente precisa conhecer a política de cor, porque a resposta tem que ser a mesma, não importa quem esteja do outro lado.

Com o rascunho pronto, leve a um advogado. Não para transformar o texto em contrato, mas para conferir se o que você escreveu está de acordo com a lei e com o tipo de produto que você vende. Peça a ele que mantenha a linguagem simples. Uma política que o cliente entende evita mais problema do que uma política impecável que ninguém lê.

A política de troca também faz parte de um sistema maior. O anúncio traz o cliente, a página convence, a regra clara dá segurança para ele pagar e o pós-venda faz ele voltar. Quando uma dessas peças falha, as outras pagam a conta. Para ver como elas se encaixam, leia como o tráfego pago funciona numa loja online, da campanha à leitura dos resultados.

No fim das contas, o que a loja escreve sobre trocas e devoluções é uma promessa feita antes da compra e cobrada depois dela. Quem lê esse texto com atenção antes de pagar é justamente o cliente desconfiado, aquele que ainda não conhece a sua loja. Para ele, uma regra clara pode pesar tanto quanto uma foto bonita ou um preço bom.

Se você quer um olhar de fora sobre o jeito como a sua loja lida com trocas, da página do produto ao anúncio que trouxe o cliente, mande a sua política atual para a Refston no WhatsApp, mesmo que hoje ela seja um parágrafo esquecido no rodapé. A gente lê com os olhos de quem compra, mostra onde o cliente trava e deixa a parte jurídica com quem é do ramo.

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